Há milhares de séculos, os primitivos colocavam pedras, uma após a outra, para atravessar os riachos que dificultavam sua locomoção. Foi assim que surgiu a primeira ponte. Desde o princípio da civilização, as pessoas vêm construindo pontes na tentativa de transpor abismos e obstáculos para, assim, se aproximarem umas das outras.
Pontes de madeira, de pedra, de tijolos, de cimento, de ferro e de aço. Pontes extensas como a Rio-Niterói (RJ), a Golden Gate em São Francisco (EUA), a do Brooklyn em Nova York (EUA). Pontes reais, como as que acabei de citar, ou imaginárias, que deram nome a filmes (A Ponte do Rio Kwai) ou a músicas famosas (Bridge Over Troubled Water). Enfim, elas aproximam as pessoas.
Tanto as pontes quanto os muros existem em toda parte. Construir um ou outro depende do propósito que temos em mente. No relacionamento conjugal, erguemos muros para excluir nossos cônjuges da nossa intimidade e pontes para trazê-los para perto de nós.
A ponte mais importante do casamento é a comunicação. Marido e esposa têm vida própria, responsabilidades e afazeres diferenciados e diversos em seu dia a dia. Seu cotidiano não é idêntico. Sendo assim, é necessário que haja uma ponte que os una. Ela é a comunicação. As pedras utilizadas pelos homens primitivos para atravessar riachos, neste contexto, são as palavras. Não importa qual seja o obstáculo que está interferindo no sucesso de seu relacionamento conjugal: a ponte da comunicação pode transpô-lo.

Regina e Gilberto estavam casados havia quinze anos quando ela recebeu uma herança de sua falecida avó. Quarenta mil reais (R$ 40.000)! Gilberto imaginou que o melhor seria aplicar a quantia na Bolsa de Valores, no mercado de ações. Temerosa por esse ser um investimento prioritariamente instável, Regina se opôs, preferindo optar por algo mais seguro. Gilberto insistiu que, como cabeça da família, a decisão final seria dele.
Assim foi feito e, em duas semanas, os negócios da Bolsa caíram vertiginosamente, provocando a perda de todo o dinheiro que eles haviam aplicado. Regina ficou frustrada, desanimada, ressentida, sentindo-se traída e desrespeitada. Culpou o marido pelo fracasso do investimento e chegou a questionar se deveria ou não se separar dele.
Ambos chegaram ao meu escritório em busca de ajuda e, enquanto os aconselhava, Gilberto disse:
— Tudo bem, não deu certo. Mas, e se desse?
Então, inesperadamente e chorando, Regina explodiu:
— O que mais me magoou não foi a perda do dinheiro. O que me feriu é que você nem ao menos quis me ouvir. Você nem me escutou!
Eis o muro que se ergueu imponente entre eles. A única forma de derrubá-lo é por meio de uma comunicação aberta, sincera e honesta. Neste caso específico, foi necessária uma negociação. Eu disse a Regina:
— Você recebeu esse dinheiro como herança, mas, sendo uma mulher casada, subentende-se que ele deveria ser compartilhado com seu marido. Por outro lado, Gilberto, você não tinha o direito de usá-lo independentemente da vontade expressa de sua esposa. Talvez o caminho mais sábio tivesse sido você investir metade segundo seu parecer e Regina utilizar a outra metade da maneira que julgasse mais apropriada.
Um muro foi erguido devido à desconsideração de um marido egoísta. Mas, graças a Deus, ele se arrependeu e pediu perdão à sua esposa, que, por sua vez, também o fez por ter ficado tão irada a ponto de cogitar a separação. A ponte foi reconstruída através da bênção da comunicação.
Jenifer veio até meu escritório para um aconselhamento. Estava só; seu marido não a acompanhara. Sentou-se à minha frente e seu nervosismo era visível. Sua voz tremia e ela falava baixo:
— Se meu marido estivesse presente a esta nossa conversa, eu não teria chance de falar. Ele me trata como se eu fosse sua filha, uma criança imatura e irresponsável. Ele não permite que eu expresse minhas ideias, vontades e emoções. Sempre me sinto melhor quando ele sai para trabalhar, pois posso ficar mais livre. Porém, há duas semanas, ele colocou um pequeno quadro-negro na cozinha e ali escreve tudo o que eu devo fazer durante sua ausência. Fiquei estarrecida porque, mesmo longe, ele quer controlar tudo o que se passa ao meu redor.
Jenifer retirou uma lista de sua bolsa e mostrou-me as tarefas que ele havia determinado que ela cumprisse no dia anterior. Como sua filhinha adoeceu, ela não pôde realizá-las. Mesmo assim, ao chegar em casa, seu marido ficou furioso.
Renato, o marido em questão, recusou-se a procurar um conselheiro familiar. Jenifer passou a maior parte do tempo falando do estresse, da desilusão e da infelicidade que toda essa pressão lhe tem causado. Ao concluirmos uma de nossas sessões de aconselhamento, ela me disse:
— Minha situação não melhorou, mas, pelo menos, eu tenho falado sobre meu problema e isso tem me feito um bem enorme!
Este é o exemplo de um muro que foi construído e que dificilmente será derrubado para, em seu lugar, erguer-se uma ponte. Por quê? O motivo é que um dos cônjuges não está disposto a ouvir o outro e a aceitar o fato incontestável de que também está errado e de que grande parte da culpa lhe pertence.
Estes casos são complicados e de difícil solução, humanamente falando. Apenas a intervenção poderosa do Senhor pode transformar genuinamente a situação. Quanto a cada um de nós, precisamos sempre trazer à mente, e selado em nosso coração, o desejo sincero de permitir que Ele erga pontes de aproximação em nosso relacionamento conjugal, ou fraterno, sempre que se fizer necessário.
Por: Jaime Kemp
PERGUNTAS PARA REFLEXÃO PESSOAL OU EM GRUPO:
1 – Como estão as “pontes” de comunicação no meu relacionamento hoje? Tenho usado minhas palavras para aproximar e compreender o outro, ou tenho, sem perceber, colocado pedras que bloqueiam o caminho?
2 – Diante de decisões importantes, eu realmente ouço meu cônjuge? Tenho buscado o consenso e o respeito mútuo nas escolhas diárias, ou costumo agir de forma individualista, impondo minha vontade?
3 – Existe algum “muro” invisível que venho erguendo por orgulho? Há algum conflito não resolvido ou ressentimento guardado que estou evitando encarar e que precisa de um pedido sincero de perdão para ser desfeito?