Gosto muito de estudar expressões idiomáticas que podem enriquecer nossa vivência social, especialmente dentro da família. Já escrevi sobre o hygge, palavra dinamarquesa que fala de aconchego e bem-estar, e sobre o dolce far niente, a doce arte italiana de simplesmente não fazer nada. Agora, quero apresentar outra palavra carregada de significado e beleza: convivialità.
Em italiano, convivialità significa muito mais do que mera sociabilidade. Ela descreve o prazer genuíno de estar junto, de compartilhar momentos à mesa com boa companhia. Refere-se à capacidade de criar um ambiente acolhedor, onde a comida, a conversa e a presença uns dos outros se combinam para gerar uma atmosfera agradável e memorável. Não se trata apenas de comer, mas de viver juntos.
A convivialità é aquele momento em que nos sentamos à mesa, deixamos o celular de lado e conversamos sem nos preocuparmos com o relógio. Recordo-me de uma experiência inesquecível na minha juventude, quando visitei uma família querida e o almoço se estendeu até a noite chegar.
Cultivamos uma amizade especial com a família Colombani, que vive em São José dos Campos. Sempre que vamos visitá-los, praticamente todo o nosso tempo é passado ao redor da mesa. Não visitamos shoppings nem fazemos passeios turísticos convencionais. A convivialità se concretiza ali, nos momentos de conversa, risadas e refeições compartilhadas.

Precisamos urgentemente resgatar a convivialità em nossos dias. Hoje, a “praga” do celular, as agendas lotadas e a impaciência têm roubado de nós essa experiência tão essencial. Muitos lares já não têm mais hora certa para sentar à mesa juntos. O resultado é visível: famílias mais distantes, conversas superficiais e filhos que crescem sem a sensação de pertencimento.
Jesus valorizava profundamente a convivialità. A mesa, para Ele, era lugar de comunhão, ensino e restauração de relacionamentos. Ele não apenas alimentava as multidões, mas escolhia intencionalmente sentar-se com pessoas marginalizadas.
No Evangelho de Lucas, lemos que “Jesus entrou na casa de um homem chamado Levi, publicano, e este o recebeu em sua casa. Havia ali uma grande multidão de publicanos e outras pessoas que estavam à mesa com eles” (Lucas 5.29-30).
Em outra ocasião, após a ressurreição, Jesus caminhou com dois discípulos até Emaús e, ao sentar-se à mesa com eles, “tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes deu” (Lucas 24.30). Foi nesse momento de partilha à mesa que os olhos deles se abriram.
A mesa de Jesus era sempre um espaço de acolhimento, ensino e transformação. Ele usava esses momentos para transmitir verdades profundas, perdoar pecados e restaurar a dignidade das pessoas. Não por acaso, a última noite antes de sua morte foi vivida em uma ceia com seus discípulos (Lucas 22.14-20).
Em nossas casas, a mesa precisa ser resgatada como lugar sagrado. É nela que os laços familiares se aprofundam, que os filhos aprendem valores e que a intimidade se constrói. Estudos mostram que filhos que crescem em famílias onde os pais dedicam tempo regular às refeições em conjunto tendem a se envolver menos com delinquência e uso de drogas, apresentam melhor desempenho escolar e desenvolvem maior estabilidade emocional.
A convivialità não é um luxo reservado aos italianos. É um presente que podemos recuperar. Que tal começar hoje? Desligue o celular, prepare uma refeição simples e sente-se à mesa com quem você ama. Não precisa ser elaborado. Basta estar presente.
Porque, no final, não são os grandes eventos que constroem uma família forte. São os momentos simples de convivência à mesa que, repetidos ao longo dos anos, criam memórias eternas e corações unidos. A convivialità é exatamente isso: a arte de viver juntos, com tempo, presença e afeto.
Por: Gilson Bifano
PERGUNTAS PARA REFLEXÃO PESSOAL OU EM GRUPO:
1 – Que pequenos hábitos ou distrações do dia a dia (como o uso do celular ou a correria da agenda) têm roubado de você a oportunidade de viver momentos genuínos de convivialità com sua família ou amigos?
2 – O texto sugere que a mesa é um “lugar sagrado” de acolhimento e transformação. Como você avalia a qualidade das refeições em sua casa — elas são momentos de conexão real ou apenas uma pausa rápida no meio da rotina?
3 – Jesus usava a mesa como espaço de comunhão com pessoas marginalizadas. De que forma você poderia resgatar esse espírito de acolhimento, convidando para sua mesa alguém que normalmente não teria esse espaço?