Adolescência e a transformação da família

Quem tem ou já teve adolescente em casa vai se identificar muito bem com o que vai ler agora. Os conceitos e experiências abaixo são fruto de estudo, observação e, principalmente, da minha vivência familiar. Eu e minha esposa recebemos do Senhor uma herança muito preciosa – temos dois filhos: um menino adolescente e uma menina quase adolescente, que são bem diferentes um do outro e aprender a lidar com eles não é como usar uma receita de bolo, trata-se de um grande desafio. Já deu para imaginar a mudança que essa nova fase nos trouxe e se há uma palavra que combina muito bem com a adolescência, ela se chama “transformação”.

Quando nossos filhos eram crianças, as coisas eram bem mais simples e fáceis. Um pedido era atendido sem muito questionamento (agora eles dizem o seguinte: “depois eu vou!”). Uma ordem dada era melhor compreendida (agora eles questionam assim: “Mas, para que eu tenho que fazer isso?”). Um gesto de carinho era logo correspondido (agora eles acham que estão “pagando mico”, principalmente se for na frente dos colegas). Assim é a vida, temos filhos adolescentes.

Sem contar as expressões próprias que na maioria das vezes só eles entendem: “tipo assim”, que significa “a exemplo de”. “Tá ligado?”, que significa “você entendeu?”. “Aquele maluco”, que significa “aquela pessoa”. Me divirto quando encerram um diálogo qualquer usando expressões como “já é, já era ou já foi”, que juntos significam uma espécie de código secreto ou simplesmente “tudo bem”, “fica combinado assim” ou “nada disso”. Dia desses, meu filho conversando com minha filha disse o seguinte: “tá tirando onda com a minha face”. Como eu estava prestando a atenção na conversa deles, logo traduzi para “você não está me compreendendo” ou “você não está prestando a atenção em mim” ou ainda “você está de brincadeira comigo”. Mas o engraçado nessa história toda é que eles sempre se entendem. A bem da verdade, os adolescentes sempre se entendem. Os pais é que nem sempre os entendem, e vice-versa.

Além do vocabulário típico, eles possuem as próprias preferências musicais e de entretenimento, as roupas precisam estar na moda e nem sempre, na mente deles, os pais são compreensíveis e amigos. E é exatamente aí que pode morar todo o perigo. Hoje em dia há um sem número de adolescentes que perderam o prazer de estar em casa na companhia dos pais e preferem se refugiar em outros lugares, no estranho desejo de pertencer ou de se sentirem aceitos e protegidos por outros grupos. A partir das más influências, os pais são surpreendidos quando os filhos começam a mudar de atitude dentro de casa, muitos perdem totalmente o controle da situação e isso se tornou o maior desafio nessa importante relação.

De fato, a adolescência é o período mais importante da transição das etapas do desenvolvimento humano e essa metamorfose afeta toda a família, que é iniciada pela puberdade dos filhos, trazendo alterações no corpo, nas emoções, nas atitudes, nas relações humanas, e na nova maneira de lidar com a liberdade e a responsabilidade. Vale também lembrar que, via de regra, nesse mesmo período os pais entram na meia-idade, onde muitos são levados à insegurança ao perceberem que a juventude já passou. Essa crise pode ser desencadeada por vários motivos relacionados a sensação de envelhecimento, insatisfação com a carreira profissional, saída dos filhos de casa, problemas no casamento, etc. Quando pais e filhos passam por transformações no mesmo momento da vida e se essa realidade não for bem trabalhada, pode acarretar no surgimento de crises ainda maiores.

O maior erro que muitos pais cometem com seus filhos, desde quando nascem, é não saber estabelecer limites. Quando chega a adolescência, essa falha se torna muito evidente, pois é o primeiro momento em que, realmente, os filhos se deparam com a liberdade e passam a dar os primeiros vôos solo. Uma criança que não aprendeu a valorizar a disciplina e que não aprendeu a importância do “não”, terá sérias dificuldades quando chegar a adolescência. Os filhos necessitam de alguém que os matricule na escola da vida e os pais são os principais responsáveis por essa iniciativa. O adolescente precisa ouvir claramente a voz do pai e da mãe ou do responsável/cuidador mais próximo a ele, que vai determinar e fixar os seus direitos e também as suas obrigações. O que os filhos mais necessitam nessa idade é de orientação.

Para muitos pais é difícil entender e entrar no universo adolescente, mas nunca impossível. Lidando com adolescentes, dentro e fora de casa, compreendi que eles são todos iguais, o que muda é só o endereço. Fico impressionado ao analisar esse típico comportamento e para comprovar listo a seguir as principais características, dentre muitas, que extraí e adaptei de um livro chamado: “Limites para Adolescentes”, do Dr. John Townsend, da Editora Vida. Peço que você compare com que frequência o seu adolescente se comporta da mesma maneira:

  • Tem atitude desrespeitosa para com os pais e parentes próximos, questionando pedidos e regras;
  • É preguiçoso e descuidado com as responsabilidades domésticas e escolares;
  • Não tem motivação para a escola e não consegue manter as notas boas;
  • É mesquinho com os irmãos ou com os amigos;
  • Costuma escolher amigos entre pessoas que você desaprova;
  • Mente e engana sobre as atividades que realiza sozinho ou em grupo, isso inclui o uso da internet, por exemplo;
  • Afasta-se dos eventos de família e quer ficar somente com os amigos;
  • Tem alterações repentinas de humor, às vezes explode em acessos de raiva;
  • Acha que nunca será influenciado negativamente, principalmente quando o assunto é álcool ou drogas;
  • Tem pouco interesse nas questões espirituais.

Se você se deparou com a mesma realidade em sua casa, o meu conselho é o seguinte: anime-se. Esqueça o mito da família perfeita. A minha não é nem a sua. Não sofra com o estigma de ser um pai ou mãe fracassados. Vença o desânimo e mãos à obra. Todos esses problemas são passageiros e, se bem tratados, têm solução. Muitos filhos que passam pela fase da adolescência com todas as suas demandas, amadurecem e experimentam mudanças positivas na vida, restabelecem o vínculo com os pais em níveis que jamais imaginaram e principalmente, voltam-se para o Senhor. Quero deixar alguns conselhos bem práticos e simples e que podem servir de base para você também.

  1. Seu adolescente é bênção do Senhor:
    Ter filhos, poder criá-los e educá-los é um grande privilégio que Deus concede aqueles que Ele sabe que tem capacidade e competência para fazê-lo. Às vezes me pego olhando para meus filhos e comento com minha esposa: “como eles cresceram!” Lembro do dia do nascimento de cada um deles e me emociono quando recordo de todas as etapas das nossas vidas até aqui: sorrisos e lágrimas, alegrias e tristezas, conquistas e fracassos, etc. Mas confesso que faríamos tudo de novo, viveríamos tudo outra vez. Valeu muito a pena. Sinto-me honrado por Deus em poder ser chamado de “pai”. O seu adolescente é uma bênção do Senhor, uma herança de muito valor que não pode ser esquecida nem depreciada. Acredite e invista nessa ideia.
  2. Lembre-se de que você um dia também foi adolescente: Como é fácil esquecer o passado, principalmente quando ele não traz boas recordações. Pelo bem do seu filho adolescente, lembre-se da sua adolescência. Quanto mais você conseguir se lembrar de como você se comportava com seus pais, mais compreensivo e coerente será com seu filho. Não forje na mente dele a falsa imagem de que você é perfeito e que nunca cometeu uma falha ou deslize com seus pais. Isso não significa que você deva contar todos os “podres” da sua adolescência, mas simplesmente criar uma identificação positiva com ele. Daí ele se sentirá encorajado a abrir o coração e compartilhar com você os próprios erros, temores e frustrações. Se você cometer um erro na frente do seu filho, admita e peça perdão. Essa simples atitude enobrece a relação e ele aprenderá uma grande virtude.
  3. Pai e mãe são exemplos de parceria para seus filhos:
    Bons pais são inicialmente bons cônjuges. Marido e mulher, numa relação conjugal ajustada e saudável, conseguirão êxito no relacionamento com seus filhos. Pais precisam ser exemplos de conduta, a partir das pequenas decisões tomadas dentro de casa. Os adolescentes precisam se sentir protegidos em um lar onde Deus é honrado e colocado sempre em primeiro lugar; onde o ambiente da casa exalam o amor, o respeito, a confiança e onde o compromisso da aliança entre seus pais é preservado. Está comprovado que quando os filhos olham para o casamento de seus pais com bons olhos, eles se sentem mais seguros e terão, no futuro, o desejo de construir um lar, baseado no exemplo aprendido dentro de casa.
  4. Não delegue responsabilidades que são suas:
    Nunca terceirize aquilo que somente você pode fazer. Para muitos pais é fácil transferir para a escola ou a igreja, por exemplo, a missão de ensinar e educar os filhos. Quando pai e mãe, juntos, se encarregam de fazer o que Deus lhes determinou, as coisas ficam bem mais fáceis. Sente com seu adolescente, converse e brinque com ele, descubra as suas preferências, preocupe-se com o ensino e o ajude nas lições de casa, procure saber com quem está andando e que lugares frequenta, busque conhecer as suas preferências, aspirações futuras, etc.
  5. Ministre sobre a vida do seu filho adolescente:
    Ore por ele e com ele. Saiba que não criamos filhos para o inferno, mas sim para povoar o céu. Invoque ao Senhor a bênção sobre os seus descendentes. A primeira imagem que o filho tem de Deus é a vida de seus pais, portanto creia que dentro em breve você perceberá mudanças positivas no comportamento dele. Quando tirar boas notas na escola ou fazer algo digno, dê-lhe uma recompensa como forma de reconhecimento e valorização da conquista. Elogie o esforço, não a perfeição e incentive-o a ir além. Quando ele falhar ou cair, encoraje e ame assim mesmo.

Preciso confessar que, apesar de termos filhos nessa faixa etária, eu e minha esposa estamos vivendo esses anos e aprendendo a lidar com eles da melhor maneira possível. Contudo, só Deus sabe como será o nosso futuro. Até lá, estamos nos esforçando para colocar em prática o que aprendemos e a Bíblia, o principal manual familiar, nos fornece lições valiosas.

Deus acredita e investe tanto na família que preparou um lar especial para Jesus viver aqui na terra. Há um episódio muito curioso envolvendo Jesus, quando este era ainda um adolescente de 12 anos e seus pais. No Evangelho de Lucas, capítulo 2, versículos 41 a 52, Maria e José levaram Jesus ao templo para ser apresentado, seguindo um costume judaico. Terminados os dias de festa, voltaram para Nazaré, onde moravam, mas Jesus permaneceu em Jerusalém. Quando deram conta do esquecimento, resolveram voltar para procurá-Lo. Depois de três dias, O encontraram no templo, sentado entre os mestres. Quando questionado pelos seus pais sobre Sua permanência em Jerusalém, Jesus sabiamente respondeu: “Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?”. Essas palavras determinaram uma transformação na relação entre Jesus e seus pais. Ali eles deram conta de que, definitivamente, Jesus tinha uma missão especial. O exemplo de criação que José e Maria adotaram precisa ser a nossa base permanente. Eles tiveram o privilégio de criar e educar o próprio filho de Deus.

Se você anda com dificuldades para lidar com seu filho adolescente, que tal experimentar utilizar as mesmas estratégias usadas por aqueles que foram e ainda são exemplos de pais para todos nós? Primeiramente José e Maria não foram super-protetores nem permissivos demais. Eles educaram Jesus com liberdade e souberam mostrar autoridade quando era-lhes esperado. Em segundo lugar, eles não impediram a escolha do ministério de Jesus. Deus tinha um plano para a vida de Jesus e eles não interferiram. A Bíblia relata Maria presente no primeiro milagre de Jesus, mostrando apoio no início do Seu ministério, só voltando a aparecer por ocasião da Sua morte. Finalmente a lição mais nobre que José e Maria nos mostram é que eles ensinaram Jesus o caminho das Escrituras. Eles tinham o costume de cumprir a lei e levaram o Filho a fazer o mesmo, o que demonstrava preocupação e investimento na vida espiritual dEle. E é assim que devemos fazer. Somente com a ajuda do Alto, conseguiremos educar nossos filhos para que eles cresçam em sabedoria, estatura e graça.

Que Deus abençoe você e sua família e que este período de transfomação causado pela adolescência dos seus filhos seja a melhor etapa da vida de vocês.

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Por: José Paulo Moura Antunes

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